A história secreta da monazita de Guarapari, o mineral capixaba que atravessou guerras, acordos nucleares e a atual disputa global por terras raras
Há mais de um século, um mineral quase invisível transformou as praias de Guarapari, no Espírito Santo, em objeto de interesse econômico, científico e geopolítico.
A história começa como curiosidade mineralógica, passa por empresas estrangeiras, acordos diplomáticos secretos e disputas sobre soberania nacional. Depois atravessa a corrida nuclear, chega ao encerramento da exploração em Guarapari e reaparece hoje na competição mundial por terras raras.
Esta é a história da areia preta de Guarapari.
Capítulo 1 — O segredo geológico
As praias capixabas escondem faixas escuras formadas pela concentração natural de minerais pesados. Entre eles está a monazita, mineral que contém terras raras e elementos radioativos, especialmente tório. inb.gov
Registros históricos indicam que, no final do século XIX, pesquisadores começaram a identificar o potencial econômico dessas areias. Em 1898, John Gordon teria enviado amostras para análise no exterior. Em 1906, uma empresa francesa iniciou a exploração comercial em Guarapari, segundo estudos reunidos pelo Instituto Jones dos Santos Neves.

Na década de 1940, a operação passou a ser associada à MIBRA — Monazita Ilmenita do Brasil —, que beneficiava a areia e separava minerais como monazita, ilmenita e zirconita.
O acervo fotográfico do IBGE conserva registros históricos relacionados à Usina MIBRA. Também existem fotografias antigas das areias monazíticas de Guarapari, produzidas em diferentes momentos do século XX.

A logística era simples e, segundo relatos históricos, predatória: retirada da areia em praias e áreas costeiras, concentração dos minerais, transporte até os portos e embarque para compradores estrangeiros.
Há relatos de condições precárias de trabalho, danos ambientais e remessas que teriam escapado ao controle estatal, inclusive com material transportado como lastro de navios. A série histórica A Guerra Atômica de Guarapari, produzida por A Gazeta, reúne documentos, imagens e testemunhos sobre esse período.
Capítulo 2 — A cidade-saúde
Enquanto a monazita era exportada, Guarapari construía outra identidade: a de cidade terapêutica.
A radioatividade natural das areias passou a ser associada a possíveis efeitos sobre doenças reumáticas e inflamatórias. A divulgação dessas propriedades ajudou a consolidar a imagem de Guarapari como “cidade-saúde”.
A ciência, porém, não oferece uma resposta simples. A areia monazítica contém tório e outros elementos naturais, mas a intensidade da exposição varia conforme o local, a concentração mineral e o tempo de permanência.
Uma reportagem do Globo Repórter apresenta pesquisas da UFES e da USP sobre a composição e os possíveis efeitos da areia.
Para complementar este capítulo, o documentário O Poder da Areia Monazítica e a entrevista com o físico nuclear Marcos Tadeu, da UFES, ajudam a apresentar diferentes perspectivas sobre a radioatividade natural e a história científica de Guarapari.
O ponto mais responsável é não apresentar a radioatividade como automaticamente benéfica ou perigosa. Guarapari permanece entre o mito terapêutico, a investigação científica e a necessidade de monitoramento técnico.
Capítulo 3 — Quando a areia virou segredo de Estado
No fim do século XIX, o tório era utilizado em camisas incandescentes para iluminação a gás. A partir da década de 1940, porém, a monazita ganhou importância estratégica porque o tório pode participar de determinados ciclos tecnológicos para produção de urânio-233.
Em julho de 1945 — no mesmo mês do primeiro teste nuclear norte-americano — Brasil e Estados Unidos firmaram um acordo secreto para o fornecimento de monazita brasileira.
Documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos registram negociações sobre a compra do excedente exportável brasileiro. Há divergência entre as fontes quanto ao volume exato, mas os documentos mostram que Washington desejava assegurar acesso contínuo ao material. history.state
As entregas ficaram abaixo do previsto, e os Estados Unidos passaram a pressionar por uma renegociação direta com o governo brasileiro. A cronologia oficial da CNEN registra o primeiro acordo atômico relativo à venda de minerais radioativos brasileiros aos Estados Unidos. memoria.cnen.gov
É importante fazer uma ressalva: não há documentação suficiente para afirmar que a areia de Guarapari foi usada diretamente na bomba lançada sobre Hiroshima.
O que está documentado é a participação da monazita brasileira em cadeias de pesquisa, processamento e comércio de materiais estratégicos durante a corrida nuclear.
Capítulo 4 — O Brasil começa a reagir
O governo Eurico Gaspar Dutra não rompeu imediatamente com os Estados Unidos. Houve tentativa de preservar e renovar o acesso norte-americano à monazita, ao mesmo tempo em que cresciam as críticas nacionalistas no Congresso e na imprensa.
A virada institucional ocorreu em 1951, durante o segundo governo Getúlio Vargas, com a Lei nº 1.310, que ampliou o controle estatal sobre minerais atômicos e criou o Conselho Nacional de Pesquisas.
Não foi um rompimento instantâneo, mas o início de uma mudança de rota.
Nos anos seguintes, novos acordos foram firmados. Entre eles esteve o chamado Acordo do Trigo, de 1954, que envolvia o fornecimento de monazita e sais de terras raras em troca de trigo norte-americano.
A imprensa da época questionou a assimetria do negócio: o Brasil fornecia matéria-prima estratégica enquanto recebia produtos básicos e permanecia dependente do processamento tecnológico estrangeiro.
O arquivo histórico do New York Times registra a controvérsia política em torno da exportação brasileira de tório e monazita.
Em 1956, durante o governo Juscelino Kubitschek, uma CPI investigou os acordos atômicos. No mesmo período, a criação da CNEN consolidou progressivamente o controle estatal sobre o setor.
A Orquima foi adquirida pelo governo em 1949 e incorporada à estrutura nuclear estatal em 1960. Posteriormente, subsidiárias da MIBRA e outras empresas foram integradas ao sistema público de mineração e processamento nuclear.
Capítulo 5 — O prefeito que disse basta
A exploração continuou mesmo depois do avanço do controle estatal. Na década de 1980, a atividade passou a enfrentar resistência direta do município.
Graciano Espíndula Filho, prefeito de Guarapari entre 1983 e 1988, liderou uma campanha contra a extração das areias monazíticas. A Nuclebrás reagiu na Justiça, argumentando que a atividade tinha interesse estratégico nacional.
A disputa chegou à Justiça Federal. A empresa obteve autorização temporária para continuar operando, mas a exploração comercial em Guarapari foi encerrada em 1986, depois da mobilização política municipal e da disputa judicial.
A formulação mais precisa é:
O fim da extração foi impulsionado pelo governo municipal de Graciano Espíndula e consolidado durante o governo federal de José Sarney, não por uma decisão isolada de Lula ou de outro presidente específico.
Em 1988, a Nuclebrás foi reorganizada, dando origem à INB. A produção costeira caiu drasticamente, mas o comércio de material já retirado continuou por algum tempo.
A própria INB informa que exportou 12.625 toneladas de monazita estocada entre 2011 e 2017. Isso demonstra que o fim da extração não significou o fim imediato do comércio dos estoques acumulados.
Capítulo 6 — A guerra mudou de nome
Quatro décadas depois do encerramento da exploração em Guarapari, o mundo voltou a olhar para os minerais estratégicos brasileiros.
O nome agora é terras raras: um conjunto de elementos utilizados em ímãs, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas, sistemas digitais e tecnologias de defesa.
O Brasil possui aproximadamente 21 milhões de toneladas de reservas ou recursos estimados de terras raras e aparece como o segundo maior detentor mundial, atrás da China, segundo o Serviço Geológico do Brasil. sgb.gov
Esse dado precisa ser tratado com precisão: possuir reservas não significa dominar a produção. O Brasil ainda enfrenta limitações de financiamento, processamento, tecnologia e licenciamento.
O governo federal começou a construir uma Estratégia Nacional de Terras Raras e avançou na discussão da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
A orientação oficial é estimular não apenas a extração, mas também o beneficiamento e a industrialização no Brasil. gov
Em 2026, os Estados Unidos intensificaram as negociações por minerais críticos brasileiros, enquanto o governo Lula defendeu a diversificação de parceiros e a preservação da soberania nacional.
A posição brasileira não é rejeitar investimentos estrangeiros, mas evitar que o país volte a exportar matéria-prima sem agregar tecnologia e valor.
A pergunta permanece:
O Brasil vai repetir a história da monazita ou transformar suas riquezas minerais em indústria, ciência e desenvolvimento?
Epílogo — O que Guarapari ainda tem a dizer
Hoje, a retirada não autorizada de areia em Guarapari é tratada como infração ambiental e mineral.
Operações do Ministério Público do Espírito Santo e da Polícia Militar Ambiental combateram a extração, o depósito e a venda clandestina de areia na região. mpes.mp
Não há anúncio oficial de reabertura da exploração histórica nas praias capixabas.
A disputa atual por terras raras é nacional e internacional, mas a memória de Guarapari continua funcionando como advertência. O país já exportou seus minerais estratégicos, perdeu parte da capacidade industrial e assistiu a outras nações dominarem as etapas mais lucrativas da cadeia.
A areia preta permanece silenciosa na praia.
Mas sua história ainda pergunta ao Brasil:
Vamos continuar exportando o que está embaixo dos nossos pés ou finalmente transformar riqueza mineral em soberania, tecnologia e desenvolvimento para o nosso povo?
A resposta ainda não está escrita.
Mas talvez esteja, há mais de um século, escondida na areia.

